Clarice sabe mesmo das coisas

Entrelaço meus dedos nos pêlos dos gatinhos que dormem ao meu lado. Eles ronronam, os maestros da sinfonia. E eu me aconchego entre as cobertas e leio Cecília, Clarice e Lygia*. E juntas pausamos para o chá.. Não são 5 da tarde, mas sorrateiras me dizem que não somos inglesas mesmo.

E Cecília sorve o chá e me diz que ela não tinha este coração, que nem se mostra. Eu vejo os saquinhos de chá se afundando na xícara e penso no sonho que ela pôs no navio e o navio em cima do mar, para seu sonho naufragar. Cecília é mulher dura, olhos secos como pedras. Eu só respondo que o meu coração também, só se esconde.

Clarice arqueia as sobrancelhas como exímia pescadora de olhares. E retirando o saquinho de chá pelas bordas da xícara diz que, não foi aquele romântico que escreveu uma vez que: amor é sim, ter constantemente o coração aberto, mas é também buscar a tristeza, a solidão e o ermo. Eu me recosto na cadeira e dou risada, digo que acho os românticos verdadeiramente engraçados por natureza. Quando eu era menina, li sobre o poeta que de suas águas-furtadas observava a amada. E águas-furtadas me assombravam. Até o dia que descobri que águas-furtadas é sótão.

E colocando a mão sobre a de Cecília, Lygia diz para ela não se endurecer tanto, porque já dizia a Adélia, que o amor usa o Correio, o Correio trapaça, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é. Não se sabe, apenas. E então Lygia acende um cigarro vaporoso e me pergunta o que mais me assombra.

A história mais assombrosa que li quando pequena foi Rapunzel. Do cavaleiro que atravessava a floresta negra e ficava cego. A fada que a aprisionava em uma torre. E os rabanetes. E eu. Sempre a Mrs. Dalloway, depois de tanto tempo, que estranho se lembrar de uma coisa como rabanetes. Eu e Mrs. Dalloway, ela repolhos e eu rabanetes. Cada coisa. Damos risadas e acendo um cigarro também.

Lygia propõe um café. Café e cigarros, então. E tudo se passa em preto e branco, como se Jarmusch nos dirigisse. Mas o café esfria, o cigarro apaga e elas se despedem. Mas Clarice, já de saída, me pega pela mão e sussurando, me diz: Eu sei, que o seu coração não se esconde não. E com um sorriso, sai levantando a gola da blusa contra a noite fria.

Eu fecho a porta e sorrio também. Clarice sabe mesmo das coisas.

*Cecília Meireles, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles

Páscoa

Páscoa e nem comi chocolate. Não, não estou de dieta (aliás, dieta é um capítulo à parte na minha vida). É que aqui ninguém comemora Páscoa. E não sendo cristã (embora minha criação tenha sido católica e já me disseram uma vez católica, sempre católica, estranho, não?) o feriado não tem conotação nenhuma – a não ser quando eu estava no Brasil, porque daí tem um monte de comida boa. Eu queria ter nascido na República Tcheca, porque além de ser conterrânea do Milan Kundera eu teria milhares daqueles ovinhos pintados à mão, que eles chamam de Krasliche, em vez de ter que ir pra missa aos domingos e não beber na quaresma – porque a Páscoa pra eles é um feriado pagão celebrando o fim do inverno e o começo da primavera.mais itens riscados da minha lista:

item#8: Terminar de ler todas as Crônicas de Vampiro da Anne Rice (10 livros ao todo): – li de julho/2006 à abril/2007. Vou ler os outros três contos de vampiros (que não fazem parte das Crônicas de Vampiro) e a vida das bruxas Mayfair. Talvez eu até releia todos os 10 livros. Eu faço muito isso – leitura anotada. Agora estou relendo um do Stephen King, The Tommyknockers – porque assim como Mrs. Dalloway da Virginia Woolf, esse livro também se passa em Junho (aliás, Ulysses do Joyce também – mesmo porque quando a Woolf escreveu Mrs. Dalloway ela tinha acabado de ler Ulysses e odiado). Enfim, estou fazendo uma leitura anotada de culinária. Vai ser interessante.

item#46: Comprar uma outra câmera digital, com mais megapixels; – ontem saímos para compar um iPod para o marido e de lambuja achei uma câmera de 7.2 megapixels c/ 50% de desconto! Como isso nunca acontece comigo, levei.

A primavera está chegando

Um dia perfeito de primavera: De manhã, passar na padaria e comprar um croissant e um café no Starbucks, depois ir até um parque com um gramado verde e gostoso de sentar/deitar com meu casaco branco e meus Wayfarers, minha bolsa da Chloe e meus Jimmy Choos. Sentar e ficar à toa ouvindo Cat Power e Indigo Girls no disc player (que iPod que nada) blogando no meu MacBook preto – depois deitar e ler Mrs. Dalloway da Virginia Woolf – meu livro preferido para ler na primavera. No almoço ir até à um café em uma rua movimentada, sentar na mesa da calçada e comer um belo panini com uma salada morna de espinafre e bacon e uma tulipa de cerveja (all malt!) enquanto folheio a edição de fevereiro e março da BUST. Voltando pra casa, comprar flores (lírios, no meu caso) como Mrs. Dalloway, que disse que ela mesma compraria as flores.
(p.s. há uns anos atrás eu teria colocado “acender um cigarro” a cada meia-hora. fumar no parque é bom. fumar depois de comer também. fumar ouvindo um som também. aliás, fumar é muito bom! Mas agora estou “saúde” total, certo?).

Em meu mundo real: Em um dia perfeito de primavera pego o ônibus e vou trabalhar – depois, trem e bicicleta. Na estação pego um latte de soja gelado. Trabalho 10 horas por dia em um lugar fechado com o ar-condicionado no mínimo. À noite volto para casa e penso em roubar uma flor do canteiro do condomínio, o que não faço. Talvez essa primavera role um piquenique. E o máximo que me aproximo de “a perfect day” é da música homônima do Lou Reed.

Então preciso de:Tempo, croissant, café, parque, casaco branco, Ray ban Wayfarers, bolsa prateada, sapato preto baixo, cds: Cat Power e Indigo Girls, disc player, MacBook preto, Mrs.Dalloway da Virginia Woolf, Panini com salada e cerveja, BUST magazine e lírios.Hum… Chego lá.