Joyeux Anniversaire

Se estivesse viva, Simone de Beauvoir completaria hoje 105 anos. Obrigada por me lembrar, Elisa.

Adoro livro de memórias e ainda não li “A Força das Coisas”, onde ela conta sobre a viagem ao Brasil e o encontro com Jorge Amado, que segundo Simone, tinha gosto pelas “coisinhas boas da vida”.

artigo3170_clip_image001Sarte, Amado e Beauvoir.

Simone de Beauvoir signature head scarf:

head bandana 1 head bandana 2 head bandana 3

fernanda montenegro e simone de beauvoir

simone-montenegro

Revista BRAVO! | Maio/2009

“A vida é um Demorado Adeus”

Às vésperas de comemorar 80 anos, Fernanda Montenegro leva para os palcos o legado da escritora Simone de Beauvoir e reflete sobre a morte recente do marido, o ator Fernando Torres

Armando Antenore

Passava um pouco das 21 horas quando, naquele sábado de Aleluia, Fernanda Montenegro disse as últimas frases do monólogo Viver sem Tempos Mortos. Por 60 minutos, a atriz carioca interpretara Simone de Beauvoir (1908-1986) para as 350 pessoas que lotavam o teatro do Sesc em São João de Meriti, humilde e populoso município da Baixada Fluminense. Entre os que aplaudiam, destacava-se Wilson Ademar, negro de 93 anos, sapateiro aposentado, que nunca presenciara uma peça antes. Tão logo tomou conhecimento do espectador inusitado, Fernanda se comoveu e indagou publicamente: “O que o senhor imaginava toda vez que pensava num palco?”. Wilson, tímido, respondeu: “Eu não imaginava”.

Pois é sobretudo com a imaginação da plateia que a atriz parece contar enquanto incorpora a filósofa e escritora parisiense, ícone do feminismo e parceira de outro célebre filósofo, o existencialista Jean-Paul Sartre. Na mais despojada produção que estrelou em seis décadas de carreira, Fernanda vira Simone sem lançar mão de elementos que remetam fisicamente à personagem. Não há sotaque, não há trejeitos característicos, não há nem mesmo um figurino afrancesado. Com uma camisa social branca e uma calça preta, a atriz senta-se numa cadeira igualmente preta, único objeto em cena, e permanece lá durante toda a montagem, sob um persistente foco de luz. Narra, então, os principais momentos da intensa trajetória de Simone. Fala sempre na primeira pessoa, usando depoimentos da própria romancista, extraídos de livros e cartas.

O monólogo dirigido por Felipe Hirsch, que já percorreu a Baixada e a região serrana do Rio de Janeiro, desembarca agora em São Paulo como parte de um evento maior, batizado deCaminhos da Liberdade. A iniciativa prevê que, antes do espetáculo, o público assista a Uma Mulher Atual, documentário de Dominique Gros sobre Simone, e, depois, participe de um debate conduzido pela socióloga Rosiska Darcy de Oliveira, especialista no legado da filósofa.

De início, Fernanda planejava tocar o projeto com o ator Sergio Britto, que assumiria o papel de Sartre. No entanto, o colega preferiu desistir da empreitada para se dedicar à peça A Última Gravação de Krapp e Ato sem Palavras I. A atriz, que completa 80 anos em outubro, acatou a decisão e prosseguiu sozinha. No percurso, perdeu o marido, o também ator Fernando Torres.

Quem vê Simone discorrer sobre Sartre ao longo do monólogo dificilmente deixa de cogitar que talvez exista um subtexto ali — que talvez Fernanda esteja refletindo sobre o próprio companheiro, um modo delicado de absorver e superar a morte dele. No domingo de Páscoa, a artista recebeu a equipe de BRAVO! para uma conversa de quatro horas.

BRAVO!: Quando você entrou em contato com Simone de Beauvoir e os existencialistas?

Fernanda Montenegro : Logo depois da Segunda Guerra, no fim dos anos 40 e início dos 50. Era um período em que Simone e Jean-Paul Sartre despontavam como celebridades, como popstars. Todo mundo do meio artístico e intelectual queria entender o que pensavam. Eu, à época, trabalhava para a Rádio Ministério da Educação, a lendária Rádio MEC, que já se localizava no centro do Rio de Janeiro. Ingressei ali em 1945, ainda adolescente, por causa de um projeto que recrutava novos locutores, redatores e atores. Fiz o teste, uma leitura de poema, sem botar fé que me chamariam. Mas me chamaram e acabei passando uma década na emissora. Jamais imaginei que encontraria por lá um universo tão rico culturalmente. Tínhamos aulas de português e de declamação, além de palestras sobre os assuntos que abordávamos no ar. Por longo tempo, desfrutei do privilégio de apresentar o programa dominical Douce France (Doce França). Em função disso, pude me aproximar ainda mais das teses de Sartre e Simone.

Qual o primeiro livro dela que você leu?

Foi O Segundo Sexo, que saiu em 1949 e se transformou num clássico da literatura feminista, sobretudo por apregoar que as mulheres não nascem mulheres, mas se tornam mulheres. Ou melhor: que as características associadas tradicionalmente à condição feminina derivam menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura. O livro, portanto, colocava em xeque a maneira como os homens olhavam as mulheres e como as próprias mulheres se enxergavam. Tais ideias, avassaladoras, incendiaram os jovens de minha geração e nortearam as nossas discussões cotidianas. Falávamos daquilo em todo canto, nos identificávamos com aquelas análises. Simone, no fundo, organizou pensamentos e sensações que já circulavam entre nós. Contribuiu, assim, para mudar concretamente as nossas trajetórias.

De que modo alterou a sua?

Sou descendente de italianos e portugueses, um pessoal muito simples, muito batalhador, e me criei nos subúrbios cariocas. Desde cedo, conheci mulheres que trabalhavam. E reparei que, entre os operários, na briga pela sobrevivência, os melindres do feminino e as prepotências do masculino se diluíam. Era necessário tocar o barco, garantir o sustento da família sem dar bola para certos pudores burgueses. Nesse sentido, a pregação feminista de que as mulheres deviam ir à luta profissionalmente não me impressionou tanto. Um outro conceito me seduziu bem mais: o da liberdade. A noção de que tínhamos direito às nossas próprias vidas, de que poderíamos escolher o nosso rumo e de que a nossa sexualidade nos pertencia. Eis o ponto em que o livro de Simone me fisgou profundamente. Lembro-me de quando vi pela primeira vez a cena da bomba atômica explodindo. Ou de quando me mostraram as imagens dos campos de concentração nazistas. O impacto negativo que aquilo me causou foi parecido com o impacto positivo que O Segundo Sexo exerceu sobre mim. Garota, já suspeitava que não herdaria o legado de minha mãe e de minhas avós, que não caminharia à sombra masculina. O livro de Simone me trouxe os argumentos para levar a suspeita adiante.

Sua mãe trabalhava fora?

Não. Era uma ótima dona de casa, uma administradora emérita do lar. Cuidava com carinho e eficiência de meu pai, um modelador mecânico, e das três filhas. Quando ficou viúva, caiu em depressão. Tinha mais de 80 anos e procurou uma psicanalista. Expôs as angústias à terapeuta e depois a ouviu, ouviu, ouviu. De repente, interrompeu a conversa e revelou: “Doutora, sabe do que gostaria mesmo? De liberdade”. Veja bem: minha mãe precisou chegar à extrema velhice para conseguir expressar o que de fato almejava. Escutei testemunhos similares — e tardios — de outras mulheres idosas, como a minha sogra. Elas integravam uma geração que suportava a dor em silêncio, sem reclamações. “Caráter e espinha”, proclamava minha mãe quando lhe indagavam quais os principais atributos femininos. Espinha para se curvar, compreende?

Os existencialistas teorizaram bastante sobre a liberdade humana. Diziam que “o homem será antes de mais nada o que desejar ser”. Você concorda?

Concordo. Somos os senhores de nossos atos, de nossas opções. “Deus ajuda quem cedo madruga”, ensina o ditado popular. Se o homem não inventar o próprio destino, Deus não irá interferir.

Você crê em Deus? Simone não acreditava.

Ora acredito, ora desacredito. Ninguém me demonstrou a presença de Deus. Tampouco demonstrou o contrário. Eu talvez cultive uma fé imensa em meio à dúvida. Por outro lado, creio plenamente no acaso.

O homem nasce livre, mas o acaso tem a última palavra, dizia Simone.

Exato. O acaso se põe acima de qualquer teoria. É o grande mistério e a principal razão para a misericórdia. Os homens deveriam se irmanar justamente porque se sujeitam, todos, às leis insondáveis do acaso. O que me fez entrar na Rádio MEC com 15 anos? O que me fez superar a timidez juvenil e concorrer às vagas de locutora e atriz? Foi o acaso, em parte. Havia a minha vontade e havia o imponderável. Se tomasse outro rumo naquela ocasião, em quem iria me transformar? Não sei. Sei apenas que hoje me encontro onde sempre quis. Vivi sem tempos mortos.

Um slogan de maio de 1968: “Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves”. Você pinçou um trecho dele para batizar sua peça, não?

É que realmente vivi sem tempos mortos, algo de que me orgulho. Mergulhei com avidez na existência que ganhei de Deus, da natureza ou do acaso. Realizei uma profissão que considero importantíssima — subir no palco para converter meu corpo em instrumento de discussões. Nunca roubei, nunca matei. Se impedi alguém de alcançar a felicidade, não me dei conta e peço desculpas. Peço perdão até. Não me julgo perfeita. Longe de mim! Carrego minhas zonas escuras, mas também umas zonas legais. Então… Elas por elas.

Que zonas escuras?

Sou rancorosa. Lógico que rejeito o sentimento e me policio: “Vamos largar de besteira!”. No entanto… Ressinto-me igualmente de não ter mais disponibilidade para os amigos e a família. Às vezes, exagero na reclusão. Distancio-me de meus afetos. Quando penso nos colegas que se foram e na atenção insuficiente que lhes dediquei… Flávio Rangel, Renato Consorte, Paulo Gracindo, Lélia Abramo, Zilka Salaberry, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran… Convivi tão pouco com o Autran… Sorte que, às vésperas de morrer, ele me mandou uma carta, comovido. Falava de coisas doces. Foi provavelmente a última carta que redigiu. A vida não passa disso, de um demorado adeus.

Em setembro de 2008, você assistiu à morte de seu marido, o ator e produtor Fernando Torres, companheiro de quase seis décadas. Como lidou com o fato?

Não lidei. Continuo lidando… Jamais a sensação do absurdo se mostrou tão palpável, tão nítida. Você não aceita aquele virar de página. Você nega a partida. O engraçado é que só me toquei de minha finitude depois de perder o Fernando. Claro que, antes, me observava no espelho e acusava a passagem dos anos. Mas não percebia que meu tempo está se esgotando, uma constatação terrível. Experimentar o desmonte psíquico, o desmonte muscular, o desmonte existencial… Não me parece fácil. Por enquanto, tudo vai bem. Disponho de vitalidade e ânimo para prosseguir. Consigo trabalhar 14, 18 horas por dia. Noto, porém, que algumas pessoas já me olham com assombro: “Ainda fala! Ainda se locomove!”. Tornei-me um estranho fenômeno de resistência, como outros de minha idade. Mesmo assim, acho que a pior tragédia é morrer jovem. Não há nada mais triste do que a vida interrompida precocemente.

Fernando concordava com as ideias defendidas por Simone em O Segundo Sexo?

Sim, totalmente. Era um homem de tutano, de fibra, um homem libertário que recusava o machismo. Enfrentou meu sucesso e minha personalidade forte à maneira de um gigante. Em nenhum momento me castrou. Pelo contrário: me incentivou muito e, na função de produtor, buscou criar as melhores condições para meu progresso como atriz. Certas vezes, me vendo no palco, chorava de emoção. Se minhas conquistas o incomodavam, não deixou transparecer — atitude que considero de uma grandeza absoluta. Infelizmente, sofreu por 20 anos em razão de uma isquemia cerebral que, primeiro, lhe trouxe depressões violentíssimas e, depois, lhe prejudicou os movimentos. Um quadro tão terrível quanto inesperado. Uma armadilha do acaso. Meses antes de morrer, fez questão de me aguardar no aeroporto quando retornei de uma viagem à Itália. Estava contente e me acenou da cadeira de rodas. Segurava um buquê de flores. Perguntei: “Por que as flores, Fernando?”. E ele: “Porque nosso terceiro neto acabou de chegar”. Recebi a notícia do nascimento de Antônio assim, com flores.

Simone e Sartre protagonizaram uma relação aberta e se cercaram de vários parceiros sexuais. Você e Fernando viveram um casamento semelhante?

Não. Firmamos um pacto de fidelidade, que deveria se manter até onde desse. E deu! No meu caso, deu. Todas as minhas fantasias extraconjugais resolvi em cena, sem amargar qualquer frustração. Se por ventura não deu para o Fernando, respeito. Fomos transgressores à nossa moda, percebe? Qual a maior subversão que um casal pode praticar nos dias de hoje? Permanecer junto! Nós permanecemos — com altos e baixos, mas permanecemos.

Simone não teve filhos. Você gerou dois, a atriz Fernanda Torres e o cineasta Cláudio Torres. Maternidade e feminismo combinam?

Certamente. Mesmo orbitando em torno do ideário feminista, sempre desejei uma família. Nunca desprezei “o orgulho da carne”. E não me arrependo: acima de tudo, sou a mãe de meus filhos. Mais que atriz, mais que a viúva do Fernando, sou a mãe de meus filhos.

Por que você resistiu à plástica, seguindo na contramão de tantos artistas? O feminismo a influenciou nesse terreno?

Não me oponho às cirurgias estéticas nem condeno quem as faça, mas receio perder minha cara. Óbvio que, à beira dos 80, gostaria de exibir um pescoço maravilhoso, eliminar as bolsas abaixo dos olhos, implodir a papada sob o queixo. O problema é que não me reconheceria sem tais “defeitos”. Fora que, aderindo à plástica, ganharia uns dez anos e, em vez de ostentar 80, recuaria para 70. Qual a vantagem?

Você se julga bonita?

Ultimamente, quando espio fotos em que apareço jovem, enxergo certa graça ali. Na época, porém, me achava um estrepezinho — magra, sem peito, sem bunda, sem coxas. Eu fugia muitíssimo do padrão. Não me equiparava às beldades daquele momento: Doris Day, Marilyn Monroe, Tônia Carrero, Maria Della Costa. O curioso é que nem por isso me sentia inferior. Numa ocasião, a companhia de Henriette Morineau me contratou para assumir o papel de uma feiosa em um espetáculo — não lembro o nome da peça. Minha personagem rivalizava com uma prima linda e fogosa, um anjo exterminador, um furacão que seduzia o tio, os namorados alheios, o diabo. Num dos ensaios, arrumei coragem e confessei que não queria interpretar a feiosa. Queria encarnar o anjo exterminador. O resto do elenco me chamou de louca. Pois acabei pegando o papel e afirmo, com enorme alegria, que ninguém protestou na plateia. Ninguém ousou dizer que aquele estrepezinho não seria capaz de enfeitiçar deus e o mundo.

Já idosa, Simone declarou que não se deixaria escravizar pelo passado. Você também parece não se prender às glórias de outros tempos e abdica de títulos que a colocam em pedestais, como o de “primeira dama do teatro brasileiro”. Por quê?

Entenda: prezo tudo que realizei, mas o passado é o passado. Terminou. Não pretendo me entregar às divagações do tipo “ah, meus verdes vales…”. Rechaço a melancolia nostálgica e, à semelhança de Simone, frequentemente me pergunto: “Que espaço o passado reserva para a minha liberdade hoje?”. Quanto à classificação de “primeira dama”, não me ofendo. Em absoluto! Só avalio que o rótulo não me cabe. Vi e vejo atrizes extraordinárias na estrada. Não é possível que apenas uma envergue a coroa. Precisamos dividir os louros. Sem contar que a mídia e os críticos mencionam sempre as damas e nunca os lordes. Cadê os lordes? Nossos palcos estão repletos deles. Na verdade, títulos do gênero são a herança de um teatro romântico, heroico — um teatro que jamais busquei. Uma vez, a Nandinha, minha filha, filmou no México com o Anthony Hopkins e me escreveu de lá: “Mamãe, ele é igualzinho a gente”. Correto! O ofício não nos tira do âmbito humano. Continuamos falíveis como qualquer indivíduo. Mesmo as divas tropeçam em cena, sofrem acessos horríveis de tosse, esquecem o texto, temem não dar conta do recado.

Você teme?

Muito! Desde moça, temo que me falte o sopro, o mistério da criação. Há artistas que perdem a chama de repente, sem saber o porquê. Não tenho consciência se já a perdi. Sinceramente não tenho. E talvez nem deseje ter.


A PEÇA

Viver sem Tempos Mortos. Monólogo sobre Simone de Beauvoir. Direção: Felipe Hirsch. Direção de arte: Daniela Thomas. Com Fernanda Montenegro. Sesc Consolação (rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, 0++/11/3234-3000). De 20/5 a 28/6.

Obrigada, Fernanda. Você fez o meu dia infinitamente melhor, e olha que hoje foi um dia ótimo. E eu que sempre fui tua fã, agora sou mais ainda. Mas não por causa da Simone não, embora eu sei que se visse tua peça, algo mudaria por dentro. E eu temerosa por fazer 30 e perder o viço. Uma bobagem sem tamanho de se lamentar. Um beijo, um abraço forte e um bouquet de flores.

RA – reeducação alimentar

vendettaEstá chovendo e estou me sentindo um pouco triste. Na verdade, eu venho me sentindo um pouco triste desde que voltei de Nova Iorque, porque engordei 2.5kg em um mês. Ontem fiz as unhas (esmalte uva – a cor do inverno que eu vi em todos em lugares em Nova Iorque – adorei e uva vai ser minha cor esse inverno) e hoje fiz uma escova no cabelo, um mecanismo de defesa que eu desenvolvi pra não ficar deprimida.  Eu me amo e acho que tenho que acordar desse estupor e cuidar de mim.

Antes que alguém ache que é muito escândalo em cima de 2.5kg: comer de forma saudável nunca foi fácil pra mim, durante anos meu peso flutuou, mas em 2006, quando cheguei aos 83kg (tenho 1.70m) decidi que não podia mais viver desse jeito, engordando e emagrecendo. Então passei a me alimentar de acordo com a pirâmide alimentar (por porções de diferentes grupos alimentares) e emagreci 10kg, chegando aos 71kg. Mantive o peso desde então, flutuando entre 71 e 73kg, mas ficar um mês comendo em restaurantes me fez sair do meu peso estável e engordei – hoje estou pesando 73.5kg.

Esse blog é quase catártico. Ou assim me pareceu em 2008. Nenhum lugar mais apropriado, pra mim, conversar sobre isso. Como feminista, é difícil achar alguma literatura que me deixe vivenciar as duas coisas plenamente: me dar completamente o direito de me sentir vaidosa sem me ater aos padrões estéticos e ainda assim militar contra meninas que se punem com bulimia e anorexia. Nunca achei que fossem assuntos excludentes.

Hoje o programa da Oprah (às 16h no GNT) foi sobre obesidade na adolescência. E me fez pensar: quando essas adolescentes eram pequenas ou ainda muito crianças, os pais e todo mundo, deviam achar esses bebês gordos bonitinhos – mas daí a gente cresce e de repente é rejeitado porque não serve, porque é muito gorda.

Um dos pilares do feminismo é trabalhar em cima de body image: quase sempre direcionado à aceitação, amor-próprio e a auto-estima. Muitas meninas, que foram super-alimentadas e acolhidas, depois rejeitadas e repreendidas (principalmente pelos pais), assim que são acolhidas pelo feminismo são bombardeadas de informação como não faça dieta, não leia revistas de dieta, se ame do jeito que você é – o que acho super válido. Mas acho que o approach deveria ser outro. Que todos aqueles sentimentos de self-loathing e self-hatred não se escondam atrás dessa mensagem.

Que a gente consiga passar a mensagem de que não há conflito algum em querer ficar bonita e se sentir gata *jogada de cabelo* simplesmente porque você se ama – sem culpas.

É o que eu vou tentar aqui.

au revoir Simone

 O texto abaixo é de autoria da Cynthia Semíramis, retirado de seu excelente blog.

Centenário de Simone de Beauvoir. 9 janeiro 2008

Hoje, se estivesse viva, Simone de Beauvoir faria cem anos. Ela é admirável, não só pela influência de seus livros no processo de emancipação das mulheres, mas pelo seu estilo de vida, bastante independente e transgressor. Sem se casar oficialmente, e conduzindo relações paralelas, teve com Jean-Paul Sartre uma relação tanto intelectual quanto amorosa que perdurou por mais de cinqüenta anos, até a morte dele. Para se ter uma idéia do escândalo dessa postura em meados do século passado, ainda hoje são poucas as pessoas que aceitam ou vivem um relacionamento amoroso aberto, em casas separadas. Também são poucas as pessoas que optam por não ter filhos, e menos ainda as que têm uma relação intelectual séria e duradoura. E quem se impressiona com Angelina Jolie e Brad Pitt andando juntos pelo mundo a serviço de causas humanitárias é porque não viu, em meados do século passado, Beauvoir e Sartre fazendo a mesmíssima coisa, ele em pé de igualdade com ela.

Espero que neste ano sejam publicadas edições comemorativas de suas obras, principalmente uma edição especial de “O Segundo Sexo” (pois as existentes estão todas em bibliotecas, mofadas e impossíveis de ler). É o mínimo que se pode esperar em homenagem à uma mulher que mudou as perspectivas do movimento de mulheres e lançou olhares interessantíssimos sobre a cultura ocidental.

Para saber mais:

——————————————————————————————————————————————————————————–

*E a Denise dá a dica dessa banda adorável: Au Revoir Simone.

às mães

Esse blog sobre maternidade é o novo Mothern.

Às meninas que foram mães cedo: leitura indispensável.

A Isabella vem de um background punk, feminista, ela fala tantas línguas que eu já perdi a conta (inglês, alemão, sueco, flamenco, se brincar ela fala mais japonês que eu, fia), toca tantos instrumentos que eu já idem e é uma das amigas que eu não vejo há séculos, eu porque estou aqui e ela porque mora nos estados unidos já há um tempão, mas que mora aqui dentro. E é artista plástica, padeira de mão cheia, companheira e… mãe. E  ela e sua amiga Anelise, jornalista e skatista, vão compartilhar no blog o que aprenderam: que são mães por consequência, mas o amor é por escolha, nada do tal instinto materno. Como a Isa mesmo descreve o blog: a favor do bom português, a favor da maternidade sem culpa, a favor da cervejinha merecida e das conversas tabuzentas

AQUI.

Já faz uns anos que a Isabella (na foto abaixo com a Ara ainda bem nenê) vêm escrevendo sobre maternidade em seu fotolog, vide texto abaixo de 2005, onde ela fala da indústria alimentícia de bebês nos estados unidos. Mas achei legal agregar tudo em um blog e duas cabeças pensam melhor que uma e é mais divertido também.

1132540707_f.jpeg

“… Engraçado como as americanas não amamentam. Elas dão um leite de vaca esquisitíssimo que vende no supermercado, super caro, que vem com umas “vitaminas” muito locas, e os nenês ficam gordos, asmáticos e burros. E viram adultos diabéticos, obesos, alérgicos a tudo quanto é coisa (aqui, “alergia a glúten” é mais comum que o mais comum dos resfriados, é bizarro!!), asmáticos to the bone.

A indústria farmacêutica (os lobbistas mais poderosos do mundo) mandam as enfermeiras da maternidade dar amostras grátis desse leite pras novas mães, pra encorajá-las a consumir o produto ao invés de alimentar seus filhos natural e gratuitamente. A minha enfermeira ficou aboslutamente dragonizada quando eu recusei. “Mas é de graça!” – “Mas eu não quero!” – “Não quer?!?” – “Não!” – (enfermeira, confusa, começa entao a telefonar: “Ela não quer! não! perguntei, mas ela disse que não queria!”)
Minhas amigas dizem, ‘Mas a mamadeira é tao conveniente!’. Eu digo, ‘Minha filha, se ter que acordar no meio da noite pra lavar, esterilizar, e preparar uma mamadeira é mais fácil do que levantar a blusa, nosso conceito de conveniência é muito diferente’.

Pobres nenês. Pra que ter filho se vai maltratar desse jeito…”