Carta à Uma Escritora

Clarice, era você a Esfinge? Decifra-me ou te devoro? O cheiro do café coado inunda a cozinha logo pela manhã e os instantes me pegam tão de súbito que me assusto.

É isso, meu deus? O Presente?

Pausa. Porque a luz reflete na vidraça que vira um prisma e firma os segundos. O instante é. Já foi. É de novo. Quando foi o teu instante, Clarice? E faço um pacto com os instantes que se aproximam: páro de caçá-los como O Pequeno Príncipe caçava cometas.

Ouve-me. Ouve o silêncio, você me diz. Porque o que me falas nunca é o que me falas e sim outra coisa. Tuas palavras me fazem querer mudar minha natureza, faz-me querer dançar à sua volta, estonteá-la, surpreendê-la – Miranda que sou.

E é tão inútil, Clarice. Ensinar o near future. Vamos então, você e eu, abolir o going to e com os dentes resumir toda a gramática em present tense.

Simple present.

*lendo Água Viva, da Clarice. Por isso.

Carta à Um Escritor

Carta à Uma Poetisa

carta à um escritor

Acho que se eu pudesse sair deste lugar hoje, eu iria pro Maine. E lá eu procuraria o seu endereço em uma cabine telefônica, dessas que têm a lista telefônica presa por uma corrente (com várias folhas já arrancadas, a das melhores pizzarias), mas é claro que seu número não estaria lá. Mas acho que se eu insistisse e andasse à esmo pelas ruas quentes de Bangor (porque eu iria em julho) eu acabaria te cruzando em algum campinho de baseball, batido de terra. É claro que eu nem ia te falar qual o seu livro que eu mais gosto, só se você perguntasse.

Eu levaria uma 6-pack pra beira de um lago, onde o ar é tão mais fresco e a gente se sentaria ali na beira do píer, com os jeans enrolados (so the tide won’t get us below the knees, já cantava a Chan) e os pés rabiscando círculos na água. E tão logo a noite caísse, acenderíamos uma fogueira pequena e um cigarro e eu faria você me contar histórias e elas nem precisariam ser de terror, porque tão pouca gente sabe o quão engraçado você é. E já no meu próprio saco de dormir, eu ficaria te apontando a constelação de Órion (que no Brasil a gente chama de três-Marias, tão mais simpático, sabe) e procuraríamos formas no céu preto pontuado de giz, ligando os pontos com os dedos.

Enquanto isso, eu me contento com o que há de você em suas páginas.

Para: Dri

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ouvindo my juvenile – Björk

Amanhã tenho prova de legislação japonesa (de novo). Nem comentei, mas semana passada eu fiz a prova e não passei por um ponto, fiquei tão frustrada. Agora vou jantar chili beans (com 3 tipos de feijão, frango, paprika, carne moída, molho de tomate e outras gostosuras) e depois tentar não comer chocolate (de tanta ansiedade). E você e sua carteira de habilitação? Eu estou focando assim: no meu carro vai dar pra ouvir o que eu quiser (porque com ELE se não é The Clash é Beastie Boys, Rolling Stones ou um monte de punk rock podre, mas enfim… Beastie Boys eu gosto, né).

Dri, e o Volta da Björk eu já tinha ouvido uma vez na loja de cd (até comentei contigo, lembra?), onde o japonês me olhava com aquela cara de “será que ela vai ficar ouvindo o cd todo?”e eu com aquela cara de “sim, obrigada”. E eu também não curto os remixes não, mas eu já esperava, porque ela gosta de. Ah, tem um remix de Jóga com o Alec Empire* do Atari Teenage Riot que eu gostei. Até agora, “my juvenile” e “declare independence” estão no repeat.

* Lá naquela página tem um trabalho solo do Alec Empire, e ELE ficou pilhado por causa do Atari que ele acha muito bom. Download feito, achei assim horrível. Ele concordou que é muito noise e não no sentido Sonic Youth da palavra, se é que você me entende. Então ele achou Patife Band, que ele ouvia e tem um vinil lá no Brasil e eu adorei. Também tem uma banda que eu quero ouvir, o Pedro the Lion, porque o nome é tão bonito, sabe? E tem Beth Gibbons também, a do Portishead. E agora eu quero ouvir Regina Spektor, me manda umas músicas por e-mail?

Pretty please with sugar on top?

beijotchau.

UPDATE (10/07): não passei. again. estou tão injuriada que até minestrone eu fiz.

carta à uma poetisa

rory sylvia

Rory Gilmore lendo The Unabridged Journals of Sylvia Plath

Estou lendo The Unabridged Journals of Sylvia Plath. E os poemas de Ana C. – não me surpreende que a segunda teve o fascínio suficiente para traduzir a primeira e que as duas tiveram o mesmo fim por quase as mesmas angústias. Ler Sylvia Plath é como ler a mim mesma. Quantas vezes não li Ariel e Lady Lazarus a pensar que estava lendo o reflexo de um espelho? Há dias em que não consigo sequer pentear o cabelo, outros em que apenas a luz que entra pela cortina do quarto me fascina e me faz entender a beleza do mundo, a beleza de ser, de existir.

Às vezes queria te dizer que seis anos me fizeram mentir e me negar, por isso guardo nosso tempo juntas em uma pequena caixa, a little pandora box, onde por vezes me acho e me perco. Sobrevivo com as sobrancelhas semi-arqueadas, às avessas com o que me cerca. Sou eu tão errada em me enterrar em meu pequeno universo?

“(…)Pois não há tempo, pois não há mais tempo, em vez disso há o medo súbito e desesperado, o relógio que bate e a neve que cai de repente demais após o verão. Certo, sou dramática e meio cínica, indolente e meio sentimental. Mas nos anos fáceis poderei amadurecer e descobrir meu caminho. Agora estou vivendo numa situação crítica. Estamos todos na beira do precipício, isso exige muito vigor, muita energia, seguir pela borda, olhar para baixo, ver a escuridão profunda sem ser capaz de identificar através da névoa amarelada e fétida o que jaz abaixo do lodo, na lama que escorre cheia de vômito; e assim sigo em frente, imersa nos meus pensamentos, escrevendo muito, tentando achar o centro, um significado para mim.(…)”
– Os Diários de Sylvia Plath (essa passagem do diário foi escrita quando ela tinha 18 anos)

ARIEL

Estancamento no escuro
E então o fluir azul e insubstancial
De montanha e distância.
Leoa do Senhor
Como nos unimos
Eixo de calcanhares e joelhos!… O sulco
Afunda e passa, irmão
Do arco tenso
Do pescoço que não consigo dobrar.
Sementes
De olhos negros lançam escuros
Anzóis…
Negro, doce sangue na boca,
Sombra,
Um outro vôo
Me arrasta pelo ar…
Coxas, pêlos;
Escamas e calcanhares.
Branca
Godiva, descasco
Mãos mortas, asperezas mortas.
E então
Ondulo como trigo, um brilho de mares.
O grito da criança
Escorre pela parede.
E eu
Sou a flecha,
O orvalho que voa,
Suicida, unido com o impulso
Dentro do olho
Vermelho, caldeirão da manhã.

(Tradução: Ana Cândida Perez e Ana Cristina César)