Clarice Lispector queimando a pele como Água-Viva

“Escuta: eu te deixo ser. Deixa-me ser então.”

“Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei aonde me levará esta minha liberdade. Não é arbitrária nem libertina. Mas estou solta.”

“Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. Vou agora parar um pouco para me aprofundar mais. Depois eu volto. Voltei. Fui existindo.”

“Depois de certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre.”

“Que o Deus me ajude: estou perdida. Preciso terrivelemente de você. Nós temos que ser dois. Para que o trigo fique alto. Estou tão grave que vou parar.”

“Mas eu me alimentei com a minha própria placenta. E não vou roer unhas porque isto é um tranqüilo adaggio.”

“Mas por que esse mal-estar? É porque não estou vivendo do único modo que existe para cada um de se viver e nem sei qual é. (…) Eu me aprofundei mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado.”

“Para te escrever eu antes me perfumo toda.”

“Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha.”

“O jasmim é dos namorados. Dá vontade de pôr reticências agora.”

“Eu, que corro nervosa e só a realidade me delimita.”

“Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos, enquanto eu amei os teus.”

“Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora.”

“Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar só uma vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor da nossa verdade.”

“Aliás não quero morrer. Recuso-me contra “Deus”. Vamos não morrer como desafio?”

“Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu e você é você. É vasto, vai durar.”

*Obrigada por ter existido, Clarice. Porque é vasto, vai durar.

Carta à Uma Escritora

Clarice, era você a Esfinge? Decifra-me ou te devoro? O cheiro do café coado inunda a cozinha logo pela manhã e os instantes me pegam tão de súbito que me assusto.

É isso, meu deus? O Presente?

Pausa. Porque a luz reflete na vidraça que vira um prisma e firma os segundos. O instante é. Já foi. É de novo. Quando foi o teu instante, Clarice? E faço um pacto com os instantes que se aproximam: páro de caçá-los como O Pequeno Príncipe caçava cometas.

Ouve-me. Ouve o silêncio, você me diz. Porque o que me falas nunca é o que me falas e sim outra coisa. Tuas palavras me fazem querer mudar minha natureza, faz-me querer dançar à sua volta, estonteá-la, surpreendê-la – Miranda que sou.

E é tão inútil, Clarice. Ensinar o near future. Vamos então, você e eu, abolir o going to e com os dentes resumir toda a gramática em present tense.

Simple present.

*lendo Água Viva, da Clarice. Por isso.

Carta à Um Escritor

Carta à Uma Poetisa

Clarice sabe mesmo das coisas

Entrelaço meus dedos nos pêlos dos gatinhos que dormem ao meu lado. Eles ronronam, os maestros da sinfonia. E eu me aconchego entre as cobertas e leio Cecília, Clarice e Lygia*. E juntas pausamos para o chá.. Não são 5 da tarde, mas sorrateiras me dizem que não somos inglesas mesmo.

E Cecília sorve o chá e me diz que ela não tinha este coração, que nem se mostra. Eu vejo os saquinhos de chá se afundando na xícara e penso no sonho que ela pôs no navio e o navio em cima do mar, para seu sonho naufragar. Cecília é mulher dura, olhos secos como pedras. Eu só respondo que o meu coração também, só se esconde.

Clarice arqueia as sobrancelhas como exímia pescadora de olhares. E retirando o saquinho de chá pelas bordas da xícara diz que, não foi aquele romântico que escreveu uma vez que: amor é sim, ter constantemente o coração aberto, mas é também buscar a tristeza, a solidão e o ermo. Eu me recosto na cadeira e dou risada, digo que acho os românticos verdadeiramente engraçados por natureza. Quando eu era menina, li sobre o poeta que de suas águas-furtadas observava a amada. E águas-furtadas me assombravam. Até o dia que descobri que águas-furtadas é sótão.

E colocando a mão sobre a de Cecília, Lygia diz para ela não se endurecer tanto, porque já dizia a Adélia, que o amor usa o Correio, o Correio trapaça, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é. Não se sabe, apenas. E então Lygia acende um cigarro vaporoso e me pergunta o que mais me assombra.

A história mais assombrosa que li quando pequena foi Rapunzel. Do cavaleiro que atravessava a floresta negra e ficava cego. A fada que a aprisionava em uma torre. E os rabanetes. E eu. Sempre a Mrs. Dalloway, depois de tanto tempo, que estranho se lembrar de uma coisa como rabanetes. Eu e Mrs. Dalloway, ela repolhos e eu rabanetes. Cada coisa. Damos risadas e acendo um cigarro também.

Lygia propõe um café. Café e cigarros, então. E tudo se passa em preto e branco, como se Jarmusch nos dirigisse. Mas o café esfria, o cigarro apaga e elas se despedem. Mas Clarice, já de saída, me pega pela mão e sussurando, me diz: Eu sei, que o seu coração não se esconde não. E com um sorriso, sai levantando a gola da blusa contra a noite fria.

Eu fecho a porta e sorrio também. Clarice sabe mesmo das coisas.

*Cecília Meireles, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles