Sobre contos de fadas

Em seu famoso discurso “On Fairy Stories”, subsequentemente publicado em seu livro “Tales from the Perilous Realm”J.R.R. Tolkien, insiste que contos de fada não são inerentemente para crianças mas que nós, como adultos, o decidimos que são, baseado em uma séries de concepções errôneas acerca a natureza desse tipo de literatura e a natureza das crianças.

Todos os contos que conhecemos hoje, a maioria deles escrito pelos Brothers Grimm, diferem e muito de sua intenção original – por exemplo. Comecei a ler The Original Folk and Fairy Tales of the Brothers Grimm: The Complete First Edition by Jacob and Wilhelm Grimm, traduzido e editado por Jack Zipes (professor emérito de alemão e literatura comparativa da Universidade de Minnesota), publicado pela Princeton University Press.

grimm

Recentemente (Nov/2014), em entrevista ao The Guardian, Zipes especula que as mudanças que os Grimm fizeram “refletem sociologicamente a condição que existia em sua existência – ciúmes entre uma madrasta jovem e sua enteada”, porque “muitas mulheres morreram durante o parto nos séculos 18 e 19, e haviam várias ocasiões em que o pai se casaria novamente com uma jovem mulher, talvez perto em idade de sua filha mais velha”. Como em Cinderella – onde suas meio-irmãs cortam partes de seus pés para que eles caibam no sapatinho dourado do príncipe a fim de provarem que são a pessoa que ele procura, do que nada adianta já que o príncipe vê o sangue saindo do sapato. “Eis a faca,” encoraja a madrasta às filhas, na tradução de Zipes. “Se o sapatinho é muito apertado para você, então corte um pedaço do seu pé. Irá doer um pouco. Mas o que importa?”

stepsisters

Nesse post de junho de 2008 eu falei um pouco da Rapunzel: “A história mais assombrosa que li quando pequena foi Rapunzel. Do cavaleiro que atravessava a floresta negra e ficava cego. A fada que a aprisionava em uma torre. E os rabanetes. E eu. Sempre a Mrs. Dalloway, depois de tanto tempo, que estranho se lembrar de uma coisa como rabanetes. Eu e Mrs. Dalloway, ela repolhos e eu rabanetes. Cada coisa.” Acho que ainda pequena eu devo ter lido uma dessas versões mais antigas, porque a lembrança que eu tenho desses contos sempre é mais dark que a versão Disney, embalada, desinfetada e pronta para consumo.

Aqui, Taylor Swift como Rapunzel, para Annie Leibovitz

Aqui, Taylor Swift como Rapunzel, para Annie Leibovitz.

Recentemente, encontrei uma pessoa que gosta de contos de fada tanto quanto eu. Além de talentosa professora de inglês, a Andrea Spoljaric também é artista. Ela transforma cadernos em verdadeiras obras de arte e vê-la contando sobre o processo de criação de cada um deles é simplesmente delicioso. O primeiro caderno da coleção O Bem e o Mal conta a história da Chapéuzinho Vermelho (Little Red Riding Hood). 

Little Red Riding Hood por Andrea Spoljaric.

Little Red Riding Hood por Andrea Spoljaric.

Esse é o panorama do caderno, que quando se fecha, se divide entre o bem e o mal – e eu achei de uma esperteza e beleza artística ela fazer isso, porque embora distintos, o que separa um e o outro é uma linha bem tênue.

Little Red Riding Hood por Annie Leibovitz para a Vogue 2009.

Little Red Riding Hood por Annie Leibovitz para a Vogue 2009.

Sabendo desse meu amor pela Rapunzel, ela fez o segundo trabalho da coleção. Tive o prazer de acompanhar o processo criativo de perto. Ela mantém um livro de sketches, onde ela cria todas as possíveis versões que ela conseguir conceber e claro, o conceito vai se afunilando, fazendo que a visão artística do trabalho dela venha à fruição. Quando ppensamos em Rapunzel, o que vem à sua cabeça? A maioria das pessoas pensa no cabelo – que seria o bem. Já a torre, em nossas conversas, surgiu como a personificação do mal. Eu sei, pode parecer meio maniqueísta, mas a verdade é que contos de fada são tudo menos isso.

Rapunzel por Andrea Spoljaric.

Rapunzel por Andrea Spoljaric.

Panorama de Rapunzel. A flor que ela tem no cabelo é uma flor de rabanete, o segundo protagonista na história, que também aparece dentro do caderno em forma de um bookmark. O princípe diz “Rapunzel, let down your hair” – para que ele possa escalar a torre. Pensei no idiom – let your hair down – pra relaxar sem a preocupação do que os outros vão pensar.

flor de rabanete

flor de rabanete

A Rapunzel dos Grimm não é uma princesa. É filha de camponeses pobres. Glamour de princesa não existe. Ela é prisioneira, ponto – de uma fada (não uma bruxa – vê como a linha entre o bem e o mal é realmente tênue?). Um príncipe escala a torre e ela engravida (ela pergunta à fada porque suas roupas estão cada vez mais apertadas). Se sentindo traída, ela corta os cabelos de Rapunzel (olha inferência do cabelo como símbolo de feminilidade, ao mesmo passo usando o corpo como castigo – ler Foucault sobre mais desse assunto) e a bane para a floresta, dando à luz a gêmeos e os criando sozinha como uma mulher forte e independente. Na tentativa de resgatá-la, o príncipe ao saber do destino de Rapunzel, se joga da torre, furando seus olhos e vagando pela floresta cego, vivendo de comer raizes e pequenas frutas até que eventualmente ele os encontra e vivem… Bem, você sabe, do jeito que o patrircado quer.

Atriz Alexandra Metz em Once Upon a Time s03 e14 "The Tower"

Atriz Alexandra Metz em Once Upon a Time s03 e14 “The Tower”

Sobre a versão Disney de Rapunzel (Tangled) Renee do blog Womanist Musings escreveu em 2010: “O padrão do cabelo longo, fluido e loiro como o epítome de feminilidade necessariamente exclui e desafia a idéia de que WOC (women of colour) são femininas, desejadas e amadas“. Obviamente um viés que não deve ser esquecido e que me marcou – lembrei disso quando assisti o episódio 14 da 3a temporada de Once Upon a Time, “The Tower” – não só a Rapunzel é negra, como ela mesma corta seus cabelos – empoderamento, minha gente.

I ain’t no damsel in distress, and I don’t need to be rescued. So put me down, punk; wouldn’t you prefer a maiden fair? Isn’t there a kitten stuck up a tree somewhere?

Not a Pretty Girl, Ani DiFranco.

Ainda

Agora pausa para o almoço. Penne com pedaços de tomate, alho e pimenta calabresa. Adoro. Depois, preparar aulas.

Inspiração DIY para o novo apartamento:

serendipity

Superziper

Eu já falei do Superziper há quase 2 anos atrás, mas quando o negócio é bom não custa falar de novo.

Dá uma olhada nesses 3 tutoriais de acessórios selecionados do Superziper :

1. Pulseira de corrente com crochê

Desejo. Não tenho agulhas de crochê em casa, senão esse seria o DIY project perfeito pra esse feriado. Tutorial com vídeo.

2. Colar estilo Lanvin

Inspirado no colar da Lanvin, por Superziper.
Colar de pérolas Lanvin, $357 na Net-a-Porter.com

A-do-rei.

3. Colar de pérolas da Olivia Palito

Colar super delicado inspirado em um colar d epérolas visto na revista japonesa Spring (edição Fev 2010).

Bonito.

DIY

Em andamento.

Bib Necklace de escamas douradas

Já faz tempo que estou querendo fazer um bib necklace (bib: babador de nenê) como esse da Forever 21. E se você leva jeito pra bordar miçangas, dá pra fazer igualzinho, pra usar com uma camiseta branca, fica lindo.

bib necklace F21Eu, que não levo muito jeito pra miçangas, decidi fazer mesmo assim. Cortei o bib no tecido que imita couro, mas de última hora, me veio uma inspiração japonesa. Olhei pra um broche de flor dourado que eu tinha e nunca usava (não tirei foto antes, então tirei foto de um outro que eu tenho em NUDE, lindo, pra você ter uma idéia de como era antes), desmanchei as pétalas e arranjei as mesmas no bib de couro como se fossem escamas, depois colei usando super bonder. Agora só falta costurar uma fita de cetim em cada ponta para fechar o colar. Por enquanto está assim:

DIY bib necklace

Très chic.

broche de flor

Eu tenho uma camiseta branca preferida. Que de tanto eu usar, apareceu um furo, bem no MEIO da camiseta, um furo grande ainda por cima. Porque sim, porque a lei de murphy nunca deixaria esse furo aparecer debaixo do braço. Isso novembro do ano passado. Não joguei a camiseta fora. Guardei até o dia que, hmmm, o furo sumiria sozinho?

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Ontem passeando no shopping entramos em uma loja de aviamentos (a disneyland da minha mãe) e comprei uma caixa com 40 linhas (parece que eu sou uma das poucas pessoas no mundo que fica genuinamente feliz com uma caixa de 40 linhas coloridas). Hoje lembrei da camiseta branca preferida. O furo ainda estava lá. Então: fiz dois broches de flor com uma blusa que tem uma estampa bonita mas já estava velha e ta nam… Pronta pra primavera (do ano que vem?).

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Mas agora ela ainda vai ficar comigo e se outro furo aparecer, faço outro broche e passo a pular carnaval, só pra usar ela.

Tutorial em ingles, aqui.

são paulo – parte 1: prédios e o Masp

É estranho pensar que moro à 1h de São Paulo e no entanto já fez 5 meses da última vez que fui pra lá. Nós estávamos planejando voltar há algum tempo e sábado de manhã, ainda na cama, decidimos ir visitar o Masp. Às 13:00 já estávamos na Paulista. Como eu gosto dessa avenida. Eu nunca havia ido ao Masp. Acho que só a arquitetura vale. Aquele vão-livre é de um bom gosto sem tamanho, a simplicidade das linhas e os pilares que deixa uma estrutura quadrada tão leve.E eu sabia, que daqui a pouco eu ia ver um Renoir.

paulista-masp

Mas na quadra ao lado do Masp tive um amor arquitetônico: o Edifício Dumont-Adams. Um edifício da década de trinta em frente ao parque Trianon e ao lado do Masp. Abandonado. Seu eu tivesse muito dinheiro, eu comprava. Tem coisa que simplesmente não tem preço. Esse edifício é uma delas.

via Folha Online Ilustrada:

“…O antigo presidente do Masp –que é arquiteto– desenhou um ambicioso projeto. Ele queria construir uma torre de 110 metros de altura no edifício Dumont-Adams, que fica ao lado do Masp. A proposta foi levada à operadora de celular Vivo, que decidiu desembolsar R$ 13 milhões para que o museu comprasse o edifício desde que ela pudesse colocar seu nome no topo da torre. Como o Conpresp (conselho municipal do patrimônio histórico) vetou o projeto, a Vivo entrou na Justiça pedindo o dinheiro de volta. A despeito da disputa judicial, Neves desenhou outro projeto para o prédio. Ele seria reformado para abrigar uma escola de arte, um restaurante e um café. A administração do museu também deve migrar para o prédio vizinho, o que aumentaria o espaço de exposição do Masp. O investimento deve ser de aproximadamente R$ 30 milhões.”

Dois estudantes de arquitetura invadiram o Dumont-Adams e tiraram fotos de dentro. Gil, um dos estudantes, diz: ” o dumont é bem bonito, o último pavimento é um desbunde, mesmo deteriorado. mas é difícil pensar função pra ele hj.
é parecido com os cinemas do centro, que são exuberantes mas não se encaixam com nosso cotidiano atual.”

dumont-adams-giselle

Junte um casal apaixonado por arquitetura e uma das avenidas mais bonitas de São Paulo e você tem milhares de fotos de prédios em casa. Se o Dumont-Adams foi amor à primeira vista, ele se apaixonou pelo Savoy.

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OLHAR E SER VISTO

A primeira exposição que vimos no Masp. É uma exposição de retratos e auto-retratos de pintores como Rembrandt, Picasso, Van Gogh, Modigliani, Manet e Renoir. É um estudo da efígie (representação plástica da imagem de uma pessoa real ou simbólica) e como muitas vezes o retrato funciona como um exercício de auto-retrato para o próprio pintor.

“…No caminho proposto pelo curador do MASP, Teixeira Coelho, as primeiras obras mostram retratados de corpo inteiro, altivos e imponentes. Mais para o final o que aparece dos modelos é quase nada e em alguns casos as imagens mal permitem a identificação do retratado…”

Primeiro vemos imagens da aristocracia e do alto clero. O tamanho da tela em si é imponente, adornada por molduras em madeira trabalhada. Se você fosse um pintor renascentista como Tiziano, o dinheiro viria da arte sacra. O que não me atrai.Não gostei da iluminação. Era bem difícil achar um ângulo que favorecesse as pinturas. Espero que o presidente do Masp dê atenção à mais simples das estruturas em uma galeria de arte.

Uma pintura de um Cardeal do Tiziano é de 1552. Que coisa. Tipo tem a idade do Brasil. Essas coisas me dão um senso de continuidade. Mas eu sou besta. Não entendo de arte.

Há também os auto-retratos. Eu acho auto-retrato a coisa mais uau em arte. Os auto-retratos de Man Ray, por exemplo. Como uma pessoa se vê. Por isso que eu gosto de ler biografia ou coletânea de cartas dos meus escritores preferidos (já li daElizabeth Bishop e da Sylvia Plath; próxima: Simone de Beauvoir). E ver um Rembrandt. Não achei especialmente bonito aquele auto-retrato, as cores escuras e o rosto melancólico falam por si só de um vazio que tinta nenhuma preenchia.

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Na parte de retratos modernos eu quase morri. Juro. Eu estava vendo o Estudante de Van Gogh e de lado avistei um Modigliani. Modigliani! Fiquei realmente impressionada. Modigliani, Matisse, Renoir, Cézanne, Van Gogh, Picasso. Devorei cada pincelada, registrei cada troca de nuance. Obras que eu sempre vi impressas em livros de arte e faziam parte do meu imaginário, lugares para os quais eu fugia folheando um e outro livro. É de tirar o fôlego. Imagina quando eu estiver em Nova York, no MoMA, no MET, no Guggenheim. Morri.

Esse Renoir foi o que eu mais gostei: Rosa e Azul – As Meninas Cahen d’Anvers

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É impressionante comoa pintura de perto é difusa e à medida que você se afasta ela ganha definição. Eu sei que essa técnica tem um nome, mas eu não sei mesmo. Também vimos o Picasso fase azul que havia sido roubado e esse Monet, A Canoa sobre o Epte.

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