O livro dourado e um café

el-ateneo.jpg

Domingo passado estávamos correndo pra lá e pra cá em um dia de compras de comida pro feriado e outras coisas. E no centro da cidade não tem lugar pra estacionar na rua, aliás, nem pode, ou você paga o estacionamento particular de em média 8 reias por hora ou usa o transporte público. E entre uma parada e outra, sobrou uns 30 minutos da hora paga do estacionamento; usando o tempo restante ou não a gente pagaria mesmo assim, então fomos matar o tempinho numa livraria ali perto e isso me fez ter saudade das livrarias do Brasil. Eu já trabalhei em uma e se eu não fosse paga tão miseravelmente eu provavelmente estaria lá até hoje. Trabalhar com livros e ainda ser paga por isso, imagine só (e funcionários podem levar livros pra casa emprestados).

Ainda acho as livrarias do Brasil melhores. Espaçosas, com vendedores relativamente informados e organizadas, ainda oferecem sofás para a leitura e sempre têm um espaço com café e internet. Essas livrarias acharam um nicho no mercado. Conquistaram pessoas, assim como eu, que fazem da compra de um livro, programa de um dia inteiro. Assim como servir vinhos durante uma refeição, onde você começa pelos vinhos mais novos e leves e vai progredindo pra os vinhos mais velhos e de sabor encorpado, assim faço também na livraria. Se tenho o dia todo, assim que chego à uma livraria grande eu vou na seção de artes visuais. Design, arquitetura, fotografia e arte. Depois vou aos livros de jardinagem, acho os que abordam os jardins ingleses particularmente interessantes. De lá sigo para a seção de gastronomia, livros grossos com muitas receitas e fotos bem food porn e mais recentemente, livros SOBRE grastronomia. Se estou em uma dessas livrarias do Brasil em que há um Café aconchegante com mesas, é uma boa hora pra seguir pra lá e pedir um espresso e um pedaço de torta de maçã. Depois sigo para os meus livros, sempre à procura de algo que tire o meu chão. Raramente isso acontece. E de lá vou ver livros de poesia, filosofia e história.

Mas no final, livros não precisam da bookstore experience. Um livro da Doris Lessing*, The Golden Notebook, provou isso pra mim no domingo. Porque foi lendo trechos do livro, em pé, apertadinha em um canto da seção minúscula de livros estrangeiros, que eu segurei minha vida nas mãos. E foi em um desses momentos que o ar é tirado de você e todos os outros livros de arte ou poesia e o espresso no café da livraria são esquecidos pelo bem maior: uma obra-prima literária.

*E até o ano passado, quando ela ganhu o prêmio Nobel de literatura, eu nem sabia que ela existia. E agora eu quero ler esse e todos os outros livros dela.
** A foto acima é da livraria El Ateneo em Buenos Aires. A mistura perfeita de mega bookstore, com aquela pitadinha de sebo. Atenção para o Café, que fica no palco. Luxo.
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18 comentários sobre “O livro dourado e um café

  1. madoka otsuka disse:

    Já que comentou, em post anterior, vim parar aqui através do blog da Mary, sou fã das coisas q ela escreve, fiquei triste mesmo, pois lia todos os dias…
    Chegou ver vídeo da Doris Lessing, logo depois de ser anunciado o prêmio, voltando das compras? tá lá na Mary??? genial essas mulher, em pensar que deixei no Brasil a autobiografia dela, em dois vols, snif snif…
    Menina, acho q as livrarias em SP, dá de 10 daqui viu…sei lá, outro dia o Zeca Camargo comentou das livrarias em Tóquio, tá pra eu ir e conferir isso.
    Boa leitura nesse yasumi
    sayonara
    bjs
    madoka

    resposta:
    É ÓBVIO que a primeira vez que eu ouvi falar da Doris Lessing foi no blog da Mary W. Eu nem sabia que ela havia ganhado o Nobel de literatura. Foi lá que eu vi o vídeo também. E nem achei a analogia TÃO ruim quanto ela estressou várias vezes no texto. Da autora feministacom o saco de cebolas e o negócio todo com as alcachofras. Gostei até. Se você cruzar com ela por e-mail ou outro, diz que tô com muita saudade dos textos?
    Um beijo e bom yasumi!

  2. Isabella disse:

    vc me mata de saudade, mulé.
    essa doris lessing é que nem como? tipo clarice lispector? me fala? compro correndo.

    resposta:
    Sabe que eu nem li ainda, Isa. Mas encomendei já o livro. Acho que ela entende completamente o universo feminino, como o Kundera, mas melhor, porque ela É mulher, evidente nesse livro e em um outro chamado Singing in The Grass, que só li uma resenha que a Mary W. escreveu uma vez. Ela é bem velhinha já. Algumas coisas eu demoro pra descobrir, mas agora quero ler tudo dela. E você sabe que a gente tá sempre atrás, né. Da próxima Clarice Lispector, dessas daí, que tiram o chão da gente. Fingers crossed.

  3. Drica disse:

    pois vc sabe que essas livrarias me deixam … ahn… de saco bem cheinho e repleto. digo dessas bookstores mesmo. eu me sinto numa lojas marisa de livros, não é legal… pelo fato que o conteúdo dos livro fica meio que em segundo plano… e como tem livro porcaria de capa linda, deus! de qquer forma, eu adorava a livraria chain, sabe? aquelas estantes de, sei lá, carvalho, mogno?! alguma madeira bonita e escura, era um lugar sombrio, calmo, como as parades da nossa biblioteca subterrânea daqui de mga, sabe? isso sim é que pe charme! mas dai, o chain maldito capetalista from hell deu um ar mais clean pra lá. ficou tipo uma bom livro encolhida na esquina. não gostei, nada, nada. a bom livro mesmo… é um banzé. digo, uma bagunça… eu não consigo ler naquele lugar, meu tico e teco não funcionam com todo aquele bacanal cibernético rolando em volta, enfim… eu fico com as estantes escuras, os lugares apertadinhos, o silêncio onde você pode conversar com o livro em paz…rs…
    ai, ai… velhota ranzinza!
    Beijos, boneca!
    Aliás, eu sempre vi essa Doris Lessing nos sebos, mas sempre ficava com aquele preconceito de “Ih, e se for uma coisa tipo Frederick Forsyth (que eu tb nunca li…rs…)”… dai deixo passar… mas se vc diz que é bom, posso arriscar uma leitura. Aliás, sebo em Mga agora é meio que moda, sabe… e tá melhor pra ler do que as livrarias hiper cult…rs…

    resposta:
    Eu, infelizmente Dri, guardo lugar pros dois tipos de livraria. E acho até que uma livraria com cara de sebo e escura e sossegada possa ser uma livraria moderna, com café e um mar de livros: a prova disso é a livraria El Ateneo, em Buenos Aires – que você sabe, nunca visitei – mas já li tanto sobre o lugar que juro que assim que eu puser os pés em BA é o primeiro lugar que vou visitar. Procura na internet, tem várias fotos do lugar. Sebo virou moda agora? Então a gente já era IN faz tempo e nem sabia, hahaha.

  4. Drica disse:

    Aliás, eu tou lendo Simone de Beauvoir. “Cartas a Nelson Algren”. Vc já leu esse cara? Pois é, ela teve um caso de décadas com ele, que eu nunca tinha ouvido falar até então…
    E tou lendo, paralelamente, Lisístrata – A greve de sexo, do Aristófanes. hehe, me gusta.
    =**

    resposta:
    Não sabia do caso dela mais ele não. Porque sempre são os casos do Sartre que vêm à tona, né. Pfff. Ela era mineirinha, né. Comia quieto. Dá-lhe Beauvoir. Vou procurar o livro djá.

  5. dane disse:

    Ia perguntar da Doris também, porque nunca li nada sobre ela nem nada dela. Mas já vi sua explicação nuns comentários acima. Parece ser bom. Isso porque do kundera (voce disse que ela entende o universo feminino como kundera) eu só li a insustentavel beleza do ser e já amei. E o mundo precisa de novas Clarices, definitivamente, apesar da mesma costumar insistir que era só uma dona de casa simples que cuidava dos filhos…
    Puxa, é muito legal você ter trabalhado em livraria. Dizem que a livraria cultura paga bem os funcionários. Aqui em São Paulo nos últimos anos abriu uma FNAC e uma Cultura gigantes lá na Paulista, se um dia vier pra cá não deixe de visitar, dá pra passar dias e dias lá (e dá pra levar os livros pra “área do café”, é fantástico.

    Enfim, também lembrei de você quando vi esse blog de uma finlandesa:
    http://ambugaton.blogspot.com/

    resposta:
    Dane, primeiramente, obrigada pelo link. Exatamente o tipo de blog que procuro pra passar HORAS lendo. Já tirei várias idéias pro meu guarda-roupa e ela tem uma palheta de cores invejável. Por acaso essa FNAC é a antiga Ática? A próxima vez que você for lá toma um expresso folheando um livro de fotografias do Helmut Newton por mim!

  6. giovanni disse:

    pois é. como disseram, apesar dessas megastores de livros se parecerem com uma marisa, c&a, etc da vida.. eu acho que as outras menores estão deixando a desejar. pelo menos as que eu visitei, nao tive vontade de ficar lá muito tempo não. não tinha onde sentar, nem o que comer, beber, etc. realmente o melhor mesmo é um espaço integrado. e o pessoal da cultura sempre é muito prestativo. da nobel também. só elogios.

    feliz ano novo. seu look de 2007 ta melhor que os outros anos, se me permite o comentário.

    resposta:
    É como eu falei, às vezes os livros não precisam disso, a gente é que quer o café pra fazer pausa e conversar e um lugar pra se sentar e folhear vários livros até se decidir qual vai ser levado. Quanto aos vendedores, acho que finalmente as livrarias aprenderam que livraria não é pra ser loja de roupa, deixar o vendedor na cola perguntando se pode ajudar. Eles ficam lá pra quem precisar de ajuda pra achar algo.
    E sabe que eu também acho? Que de cabelo longo fico melhor e tal.
    Um abraço.

  7. mariana disse:

    Só queria deixar registrado que encontrei seu blog em algum mês do ano passado (ahah), e ele logo se tornou um dos meus favoritos… tentei comentar uma vez, não sei se foi ou não, mas tava dando erro direto.
    é, é isso mesmo. um comentário bobinho. não sei mais fazer comentários decentes (…)

    resposta:
    Então deixa eu falar, que eu já tinha visitado o seu blog antes 🙂 Achei genial aquele post Nota que era só pra ser mental. Porque eu faço muito isso. Anotações mentais.

  8. helenafelix disse:

    A melhor (e maior) livraria que eu já fui foi em NY e se chama Strand. Fiquei boba com a quantidade de livros sobre arte e que eu não tinha nem idéia que existiam e outra fator surpreendente foi que a maior sessão era destinado aos livros de arte, totalmente diferente das livrarias do Brasil, onde a parte destinado a esses livros são 3 pratileiras ou 4 estantes nas melhores livrarias. Um dia quem sabe eu volto lá com dinheiro.

    resposta:
    Isso é verdade, a parte de arte é muito negligenciada. Mas a verdade, Lena, é que livros de arte no Brasil são um absurdo. O máximo que dava pra eu comprar era os livros da Taschen. Volta lá e tira umas fotos pra mim!

  9. Drica disse:

    eu tenho e admitir, agora fiquei mais louca pra ir à Buenos! Será que tem cheirinho de ácaro? Ai a livraria seria perfeita! *rs* Mentira, pq tenho alergia…atchiiiiiim!
    Beijos, queridona!

    resposta:
    Livraria com cheirinho de mofo… Aaaaatchim! Mas fala se não é A livraria?

  10. dane disse:

    Eu vi o filme sim. Quase inteiro, mas juro que não aguentei. Achei que o filme não é quase nada fiel ao que eu mais gostei do livro, sei lá. Dava um enfoque totalmente diferente, meio “A liberdade é azul”, o tipo de filme que eu não sou muito fã. Prefiro imensamente o livro, não acho que dá nem pra comparar direito.
    E você, assistiu? Que achou?

    resposta:
    Primeiro deixa eu falar meu tralala, que sempre falo mesmo: eu acho que livro bom não faz necessariamente cinema bom. Mas eu nunca vou ver um filme que é adaptação esperando que o filme seja fiel (a não ser quando é do Stephen King, daí eu rodo a baiana e tal), porque nunca é mesmo. E eu acho a trilogia das cores do Kielowski genial, Dane. Acho mesmo. (Nem deixa minha amiga Dri ouvir você falar uma coisa dessas, menina! Ela é louca por ele, o Kielowski *risos*). Principalmente A Liberdade é Azul, que fala de desapego. E o tom do livro do Kundera. Ele sempre fica te lembrando que ele, o escritor, está contando uma história. O que dá mais espaço pra ele fugir da história quando quer. E é perfeito assim. Eu prefiro o livro, mas o filme tem um outro tom, né? Vira romance, o que eu acho que o livro não é. Mas enfim…

  11. Dane disse:

    Aiii Dri, não leia! Mas de qualquer forma, eu sempre achei que minha falta de gosto por filmes tipo a trilogia do Kielowski deve ser por alguma falta de maturidade minha em algum campo, sei lá, cinematográfico artístico talvez, mas por algum motivo me amolo fácil com eles e parto pra alguma coisa mais “easy watching”.
    É exatamente isso: o filme é um romance que nao me apeteceu. Acho que com esses livros que eu fico embasbacada de como o autor consegue arrancar coisas das minhas entranhas sou exigentassa que nem você é com o Stephen King. Quero ter as mesmas sensações com o filme, quero que ele surpreenda mais com o livro, e daí fico desencantada quando assisto um negócio não tão mágico assim.Tipo chatona demais. hehe

    resposta:
    Nem acho que é falta de maturidade cinematográfica. Só não te interessa. Eu tenho um pecado inominável: não gostar muito dos filmes do Chaplin. Tem alguma dica de livro pra me dar? Eu tô tào sem idéia. depois desse da Lessing queria ler uma coisa diferente.

  12. marcitolina disse:

    ah, eu tinha que comentar neste, adorei a foto dessa livraria. um café no palco? isso não é realmente muito fodinha?
    quero te falar da minha livraria favorita, lugar que pra mim é passeio especial e tbm se tornou minha biblioteca, acredite. quando quero ter inspiração artística e me enchi de procurar na internet, é lá que eu vou. A livraria cultura é a maior livraria do brasil, enorme mesmo, nunca consegui andar nela inteira pq sempre fico perdida na seção de design e cinema. até a de informática me prende. é lindona, cheia de ‘puffs’ (como é que escreve isso, hein?)… fico lá lendo, anotando nome de pessoas que quero ver mais coisas… enfim, faço de lá minha biblioteca. o preço é meio salgadinho, mas… E eu tou procurando trabalho e mandei currículo para lá. seria bem, mas bem legal trabalhar rodeada de livros. e como essa loja cheira bem, parece até que estamos dentro de um livro gigante novinho. Acho que você ia gostar bastante.

    Agora, livrarias marrons com caras de velhas não me atraem não. Bom, os livros atraem, mas essa coisa escura, mogno, antiquada não é minha ‘praia’ não.

    Tou precisando de emprego, quero comprar mais livros… e mais roupas, e mais brinquedinhos eletrônicos. E um dia, mesmo que seja em 2050, eu ainda vou pro Japão, descolar um Jaspion só pra mim! hahahaha

    beijão!

    resposta:
    Marcita, eu entrei no link da Livraria CUltura que você deixou e nossa… Tá lado a lado com esse da Argentina. Sö faltou a cafeteria no palco. Um dia a gente se junta lá, eu você e a Dri, vamos nessa livraria Cultura usufruir as almofadas gigantes e tomar um café depois. Sö tenho que dizer que achei aquele amarelo muito pra minha cabeça. Eu gosto dessas livrarias com cara de velhas, sabe. Mesmo. Daí que eu achei a cor meio loja de roupa, com luz de farmácia (muito branca!). Mas é pedir muito. Gostei da área dos sofás também. Agora me fala, como uma garota talentosíssima como você anda fazendo sem emprego?
    BEIJO!

  13. marcitolina disse:

    Ih, eu gosto de Chaplin, tanto, que acho ele sexy! hahaha (é, tem doido pra tudo, aos 6 anos eu achava isso do Jaspion… mas que gosto bizarro o meu, não? hehe).

    resposta:
    Hoje mesmo (domingo, dia 13) tava passando City Lights na tv. Não agüentei.

  14. marcitolina disse:

    Hm, a luz amarela não é tão assim como na foto, mas se você gosta das livrarias clássicas, te entendo. Eu gosto de lá, por ser mais moderninha. Mas tem um ar clean, acredite. Adoro perder a noção do tempo em livrarias! =)
    Quando você pensa em vir pra cá pra gente dividir um café, hein?
    Poxa, eu tou tateando o escuro por aqui, Giu… trabalhar em alguma produtora/agência ou qualquer coisa do tipo está sendo tão difícil, até para um estágio super-mega mal remunerado tá difícil… Tou na crise da conciência, achando que eu fiz a escolha errada em estudar o que gosto. Eu sei o que as pessoas dizem com isso, pq eu digo o mesmo… Mas quando falta grana, a gente manda o gosto pras cucuias… e eu sou a típica sagitariana que está sempre fazendo as coisas surto e na pressa… aiaiai
    E este ano o que eu mais queria era estabilidade financeira pra sair da casa da mamãe e fazer da vida um bordel! (hahaha – brincadeirinha, nem tanto assim!).
    Beijocas em você, e valeu por chamar de talentosa… a talentosa aqui é tu, Giu! =)

    resposta:
    Mas nem fica assim, uma hora alguma coisa aparece. Mas tem que correr atrás. faz seus projetos e sai batendo com o portfólio na mão. Pra gente com talento sempre pinta algo. mesmo.
    Beijo grande!

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